Congonhas: a beleza radical do pouso no epicentro da maior metrópole do País

Airbus A319 em procedimento de aproximação para Congonhas

Dois meses atrás o Blog Sobrevoo criou uma enquete informal para quebrar o gelo dos assuntos técnicos regularmente debatidos por aqui. Afinal, mais do que máquinas e turbinas, voar também é poesia. Que o diga Antoine de Saint-Exupéry. A ideia era atiçar os leitores na busca das paisagens aéreas mais bonitas do País. Assim, perguntamos: onde é mais bonito pousar no Brasil?

Candidatos óbvios, favoritos, vieram à tona imediatamente: Rio de Janeiro, Fernando de Noronha, cidades da Região Amazônica e do litoral. Meses depois, porém, pesquisa encerrada, uma surpresa. A maioria não quis saber de nenhum “formoso céu, risonho e límpido ao som do mar e à luz do céu profundo”. Para eles o pouso mais bonito do país fica em… São Paulo. Em meio a quase quinhentos votos, o pouso no Aeroporto de Congonhas sagrou-se vitorioso tomando para si cerca de 34% dos votos (151 de um total de 446).

Polêmica à vista? Não exatamente. Ocorre que apesar de não dispor de uma baía azul emoldurada pelas rochas do Pão de Açúcar, ou dos leitosos igarapés amazônicos, o aeroporto de congonhas propicia, de fato, um pouso que é uma aventura urbana, e tensa, única. É um espetáculo ‘radical’ descer sobre a selva de pedra infinita e pousar numa pista cercada de ruas, avenidas, construções, imóveis residenciais, centros comerciais, tal como se descêssemos em uma rodoviária ou uma estação de metrô logo ali na esquina. Afinal, como também descreveu um baiano que já se abrigou nessas bandas é exatamente dessa “dura poesia concreta de tuas esquinas (…) da fumaça que sobe, apagando as estrelas, que vemos surgir teus poetas de campos e espaços”. E não é verdade?

Para celebrar o empenho dos paulistanos – e não-paulistanos – que, Continue reading

Onde é o pouso mais bonito do Brasil?

“Tripulação, pouso autorizado!” Por mais fascinante que seja a materialização do sonho de Ícaro, o anúncio do final de voo sussurra como massagem aos ouvidos. A vista da janela confirma: chegamos, agora só nos resta botar o avião de volta ao chão.

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Voo sob o pôr do sol de Brasília. (Foto: Fabio Maciel)

Mas não é tão simples assim. Se na decolagem a impetuosidade humana desafia o bom senso ao levantar um objeto mais pesado que o ar, no pouso o piloto há de ser mais humilde. Há de reconhecer a inocuidade da potência das turbinas diante das leis de Newton, já que tudo o que um dia sobe em algum momento haverá de descer, voluntariamente ou não. De preferência, no caso de um avião lotado de passageiros, leve como uma pluma, roçando suavemente os pneus na pista e sem acordar as crianças.

Não à toa, a aproximação para pouso, ao menos em jatos de grande porte, é a única etapa do voo em que se consegue ver, em detalhes, as paisagens que se descortinam da janela em baixa altitude. É quando nos surpreendemos diante do tapete infinito de arranha céus da zona Sul de São Paulo, ao descer em Congonhas; do encontro dos rios Negro e Solimões, em meio aos igarapés da Amazônia, em Manaus; quando tentamos cutucar os bondinhos do Pão de Açúcar ao girar quase 180 graus sobre a enseada de botafogo, ao descer no Santos Dumont ou Continue reading